sexta-feira, 17 de dezembro de 2010

O meu velho amigo Tempo

Aquilo que hoje vejo não é mais do que aquilo que sempre vi. É o presente que já foi passado e que, um dia, será futuro. Nada muda. Um mundo imutável, monótono, perdido numa conjugação de memórias e dissertações do futuro. Um misto tão incompreensível e confuso de tempos que não sei já dizer se ainda é hoje ou se é amanhã. São anos que me sabem como meses e são meses que passam pela minha face sem que dê por isso. Tempo, métrica, ritmo e tudo mais que possa ser contado, porque tudo o que é contável é tempo e é triste. O próprio tempo é triste. Triste porque se limita a passar. É traiçoeiro, passa pela minha vida sem que eu o possa parar e agarrar e impedir que corra. E depois, o que resta são memórias. Oh, as memórias! ... Memórias vivas de um tempo que já morreu, que já não existe e que já não se repete. Mas repete. E não repete. (Mas, afinal, o que é uma repetição?).
Memórias , sim!, memórias. Algumas tão difusas, escrevinhadas entre linhas semi-apagadas de folhas velhas, rasgadas e queimadas, folhas que o vento leva pelo ar como folhas tristes de Outono, folhas mortas que já não vivem. Memórias. E o passeio fica manchado de cores escuras, marcas coloridas dessas folhas mortas que já não voltam a viver. E eu caminho por esse passeio, à procura do tempo que passa e não me deixa descansar. Às vezes corro; outras, descanso. Mas não descanso por muito tempo, porque o Tempo não me deixa descansar. E também não corro por muito tempo, porque o Tempo me tira a força. E vou desgastando a velha calçada, manchada de uma mistura de castanhos e verdes, molhada pela chuva que o Tempo deixou chover para que pudesse passar mais rápido. Tão rápido que, por vezes, escorregava numa dessas folhas malditas e caía, redondo e desnorteado no chão molhado e manchado de cores de Outono. E quando caía, eu via, de longe, e corria desvairada, pronta para o agarrar. Pronta para levantá-lo do chão molhado e levá-lo para minha casa. Dar-lhe uma sopa quente e pô-lo à lareira, quentinho e amado, para que cessasse de passar. Mas antes que o pudesse alcançar, ele levantava-se e corria de novo. E lá volto eu a subir a alçada velha e gasta...

2 comentários:

Vulto Negro disse...

Excelente texto com uma excelente caracterização, Joaninha... Continua assim =)

Anónimo disse...

Continuaremos sempre a correr atrás dele até aprendermos a ser traiçoeiros e a passarmos por ele e não o contrário.

Parabéns pelo texto ;)

Filipa